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sábado, 4 de março de 2023

Há alguma coisa que importe?

Podem os juízos morais ser verdadeiros ou falsos? Ou será a ética, no fundo, uma questão puramente subjetiva, cuja escolha cabe aos indivíduos, ou que é talvez relativa à cultura da sociedade na qual vivemos? Talvez tenhamos acabado de descobrir a resposta.

Entre os filósofos, a perspetiva de que os juízos morais expressam verdades objetivas tem estado fora de moda desde os anos trinta do século XX, quando os positivistas lógicos afirmaram que, porque não parece haver qualquer maneira de verificar a verdade dos juízos morais, estes não podem ser senão expressão dos nossos sentimentos ou atitudes. Assim, por exemplo, quando dizemos «Não devias bater na criança», tudo o que estamos realmente a fazer é a expressar a nossa desaprovação ou a encorajar a outra pessoa a parar de bater-lhe. Não há qualquer verdade quanto a ser imoral ou não bater na criança.

Apesar de esta perspetiva da ética ter sido muitas vezes posta em questão, muitas das objeções tiveram origem em pensadores religiosos que invocavam os mandamentos de Deus. Esses argumentos não são muito atraentes no mundo em grande medida secular da filosofia ocidental. Outras defesas da verdade objetiva na ética não invocavam de modo algum a religião, mas não conseguiram alterar significativamente o clima filosófico predominante.

O mês passado, contudo, assistiu a um acontecimento filosófico de relevo: a publicação do há muito esperado livro On What Matters, de Derek Parfit. Até agora, Parfit, que é membro emérito do All Souls College, em Oxford, escrevera apenas um livro, Reasons and Persons, que surgiu em 1984, tendo sido muitíssimo bem recebido. Os argumentos inteiramente seculares de Parfit, e a maneira abrangente como ataca as posições alternativas, puseram na defensiva, pela primeira vez em várias décadas, aqueles que rejeitam o objetivismo na ética.

On What Matters é. um livro de uma dimensão intimidante: dois imensos volumes, totalizando mais de 1400 páginas, de texto densamente argumentado. Porém, o núcleo do argumento surge nas primeiras quatrocentas páginas, que não constituem um desafio insuperável para quem tiver curiosidade intelectual — em particular porque Parfit, na melhor tradição da filosofia de língua inglesa, procura sempre a lucidez, nunca usando palavras obscuras quando pode usar palavras simples. As frases são diretas, o argumento é claro, e Parfit usa muitas vezes exemplos vívidos para clarificar as coisas. Assim, o livro é um petisco intelectual para qualquer pessoa que queira compreender, não tanto «o que importa», mas se há algo que realmente possa importar, num sentido objetivo.

Muitas pessoas pressupõem que a racionalidade é sempre instrumental: a razão só pode dizer-nos como obter o que queremos, mas os nossos quereres e desejos básicos estão para lá do âmbito do raciocínio. As coisas não são assim, defende Parfit. Tal como podemos apreender a verdade de que 1 + 1=2, também podemos ver que tenho uma razão para evitar sofrer no futuro, independentemente de agora me importar com isso ou de ter ou não desejos quanto a isso. Podemos também ter razões (ainda que nem sempre conclusivas) para evitar que os outros sofram. Estas verdades normativas autoevidentes fornecem a base da defesa de Parfit da objetividade na ética.

Um dos mais importantes argumentos contra o objetivismo na ética é que as pessoas discordam profundamente acerca do que é moral ou imoral fazer, e esta discordância abrange filósofos que não podem ser acusados de serem ignorantes ou de estarem confundidos. Se grandes pensadores como Immanuel Kant e Jeremy Bentham discordam acerca do que temos o dever de fazer, poderá realmente haver alguma resposta objetivamente verdadeira a essa questão?

A reação de Parfit a esta linha de argumentação leva-o a defender uma tese que é talvez ainda mais ousada do que a sua defesa do objetivismo na ética. Este toma em consideração três das principais teorias acerca do que temos o dever de fazer — uma que deriva de Kant, outra da tradição do contrato social de Hobbes, Locke, Rousseau e dos filósofos contemporâneos John Rawls e T. M. Scanlon e outra ainda do utilitarismo de Bentham — e defende que as teorias kantianas e do contrato social têm de ser revistas para que sejam defensáveis.

De seguida, argumenta que estas teorias revistas coincidem com uma forma particular de consequencialismo, que é uma teoria que pertence à família geral do utilitarismo. Se Parfit tiver razão, há muito menos discordância do que pensávamos entre teorias morais aparentemente opostas. Os defensores de cada uma destas teorias estão, na expressão vívida de Parfit, «a subir a mesma montanha por encostas diferentes».

Os leitores que abordarem o On What Matters procurando uma resposta à questão sugerida pelo título poderão ficar desapontados. O verdadeiro interesse de Parfit é combater o subjetivismo e o niilismo. A menos que possa mostrar que o objetivismo é verdadeiro, pensa ele, nada importa.

Quando Parfit acaba por chegar à questão do que «importa», a sua resposta poderá parecer surpreendentemente óbvia. Diz-nos, por exemplo, que o que importa mais agora é que «nós, que somos ricos, abdiquemos de alguns dos nossos luxos, paremos de sobreaquecer a atmosfera da Terra e cuidemos de outros aspetos deste planeta, para que continue a sustentar vida inteligente».

Muitas pessoas já tinham chegado a essa conclusão. O que se ganha com o trabalho de Parfit é a possibilidade de defender que estas e outras teses morais são verdades objetivas.

 

do Project Syndicate, 13 de junho de 2011

 

(Excerto de obra disponibilizado ao abrigo do art. 75.º, n.º 2, alínea f, do Código dos direitos de autores e direitos conexos | Texto de suporte à atividade “Conversas na BE – Vamos falar de ética”)

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Livros que foram notícia

 Títulos: Livros que foram notícia

Autor(es): Hemeroteca Digital

Publicação: Hemeroteca Digital

www: https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/LivrosQueForamNoticia/LivrosQueForamNoticia.htm

Sinopse: Num universo mediático em que os assuntos culturais raramente constituem notícia de primeira página na imprensa generalista, existem momentos em que o livro, determinado livro, assume esse protagonismo.

Livros que foram Notícia, projeto que se irá desenvolver ao longo do ano de 2018, ao ritmo de uma edição por mês, procura explorar alguns desses momentos, em que os livros se tornaram o foco das atenções, se libertaram das páginas da imprensa especializada e dominaram os debates na Opinião Pública. E contar essas histórias, com base do que nos jornais e revistas ficou escrito.

domingo, 23 de outubro de 2022

Leva-me contigo - o documentário

Título: Leva-me contigo - o documentário [vídeo online]
Autor(es): Vasco Guardado Simões; real. João Pedro Félix
Publicação: RTP, 2020
www: ver na RTP Play 
Sinopse: Entre abril e maio de 2019, Afonso cruzou montanhas e planícies, mergulhou em rios, caminhou debaixo de tempestades e sob o sol ardente. Mas sobretudo parou para conversar com quem encontrava. No fim de cada dia, publicava na sua página de Facebook um diário escrito no telemóvel relatando os principais eventos da viagem. Com milhares de leitores, comentários e partilhas, os seus textos geraram grande entusiasmo.
Depois da obra Leva-me Contigo (Dom Quixote, 2019), a experiência do escritor na maior estrada do país ganha nova dimensão neste documentário que reúne filmagens inéditas do percurso e testemunhos das pessoas com quem se cruzou.

 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Documentário: Navegações, de Sophia de Mello Breyner Andresen

 Título: Grandes livros: Navegações, de Sophia de Mello Breyner Andresen [vídeo]

Autor(es): real. João Osório; narração de Diogo Infante

Produção: Companhia das Letras, 2009

Publicação: RTP Ensina

Duração: c. 50 min. 

Ver Vídeo

Este conjunto de poemas começou a desenhar-se no final da década setenta, durante uma viagem de Sophia a Macau, onde iria falar de Camões. Navegações evoca a expansão marítima portuguesa, mas também conta a experiência da escritora como viajante.

Mais do que a história da descoberta física de territórios, esta obra centra-se no encontro e na descoberta do outro, no olhar “que às vezes está pintado na proa dos barcos”, como a autora viria a dizer mais tarde. E quem melhor do que os portugueses teve essa experiência, em múltiplos lugares, com distintos povos?

Foi precisamente em viagem, maravilhada com a vista área do Vietname, que Sophia de Mello Breyner Andersen conseguiu inspiração para estas Navegações. Convidada pelo Conselho da Revolução para discursar em Macau, nas celebrações do dia de Camões, a poetisa sentiu o encantamento pelo oriente, sentimento que – provavelmente – outros tinham encontrado muitos séculos antes.

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Sobre livros e escritores: Todas as Palvras


Título:
Todas as palavras [programa de televisão]

Autor(es): Ana Daniela Soares e Inês Fonseca Santos

Publicação: RTP Play

ver programa

Sinopse: Programa sobre livros e autores portugueses e estrangeiros

 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

As 50 obras essenciais da literatura portuguesa

Título: As 50 obras essenciais da literatura portuguesa
Autor: João Céu e Silva

Publicação: Diário de notícias online, 23.04.2016 

www : https://www.dn.pt/artes/as-50-obras-essenciais-da-literatura-portuguesa-5140124.html
 

Quem é o autor mais importante da literatura portuguesa? Quais são as obras fundamentais em todos os géneros literários?

 

© Tiago Albuquerque


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Podcast: o livro do dia

 


Título:
O livro do dia

Autor: Carlos Vaz Marques

Produção: TSF, 2012-

www: https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia.html

"Editam-se em Portugal 15 mil livros por ano. A maior parte deles nunca encontra os leitores a quem se destina. O Livro do Dia procura ser a montra privilegiada do que de melhor se edita em Portugal nas mais diversas áreas: dos clássicos da literatura à revelação de novos autores, da não-ficção ao livro infanto-juvenil. Diariamente, trazemos à antena um novo livro com a escolha do jornalista Carlos Vaz Marques. Uma parceria com o Plano Nacional de Leitura."